segunda-feira, 21 de março de 2016

Uma Professora Universitária que mudou o Sertão
Por Félix Vasconcelos
Seu nome era Maria,nome muito comum no sertão brasileiro. Ela partira de Xiquexique no ano de 1946, fora para a capital Fortaleza. Sua cidadezinha ensinara-lhe apenas a ler e a escrever. Fora em busca de conhecimento que mais tarde traria de volta para o sertão de Xiquexique.
Ela tinha 10 anos de idade quando partira. Seus pais lhe disseram que no sertão não tinha boas perspectivas. Como o sertão não tinha perfectivas, se Deus a fez nascer no sertão?!
Ela ainda menina morando na casa de uma tia, na capital cearense, sempre pensava no sertão. “Como mudar o sertão para ele deixar de ser essencialmente agrícola para ser um sertão cultural e progressista?”
Este pensamento primordial martelava todos os dias nos seus pensamentos durante toda a sua adolescência e maturidade.
No ano de 1950 aos 14 anos em uma viajem de férias à Xiquexique, ela doou 100 livros para as crianças da periferia de Xiquexique. Livros que ela conseguira com ajuda de seus colegas do Colégio Roosevelt. Assim sucessivamente nos anos de 1950 até 1960, por mais de dez anos, ela levara livros para a periferia do sertão de Xiquexique.
Nestas viagens ela via muitas crianças batendo em latas como se fossem tambores, algumas crianças soprando em pedaços de canos como se fossem flautas. Ela via aí um grande potencial musical nas crianças do sertão.
Aos 25 anos já trabalhando num bom emprego, quando recebera seu primeiro salário de professora na Universidade Federal do Ceará comprou 10 flautas de plásticos e dou para aquelas crianças mais talentosas, musicalmente, da cidade de Xiquexique.
Criou a Banda de Música Flautistas do Sertão Xiquexiquense. A professora universitária Maria sendo muito inteligente e talentosa aprendera a ler partituras e a tocar flauta com o único objetivo ensinar a estas crianças a evoluírem musicalmente ; de quinze em quinze dias ela viajava para a periferia de Xiquexique para ensinar as crianças a ler partitura e a tocar novas músicas, principalmente músicas de Luiz de Gonzaga.
Sempre em suas viagens à Xiquexique levava os bordados de Xiquexique para vender aos colegas da universidade. Criara a Associação das Artesãs de Xiquexique. Organizou a primeira Feira do Artesão de Xiquexique com a ajuda de sua amiga xiquexiquense Dalva (presidenta da associação das artesãs de Xiquexique).
Seus pais, Pedro e Antônia, dono de terras em Xiquexique cederam um terreno na zona urbana de 50m X 15 m para que ela construísse o primeiro Centro de Artesanato. Com ajuda de amigos empresários de Fortaleza ela construiu o primeiro centro de artesanato de Xiquexique. Gerando inicialmente 20 empregos diretos e 50 empregos indiretos.
Então com coragem e iniciativa ela começara a grande transformação do sertão. Já havia elementos propulsores da cultura e do trabalho. Suas palestras educativas e otimistas se intensificaram nas praças e ruas de Xiquexique. Será ela a salvadora do sertão de Xiquexique?!
-Caros e amados conterrâneos propaguem os conhecimentos por todo o sertão cearense, começando pelo sertão xiquexiquense!
O povo respondia em coro:
- Viva a Maria a redentora do sertão xiquexiquense!
Ela e seu oito irmãos se reuniram com o consentimento de seus pais para criar a primeira área de preservação ambiental de Xiquexique nas terras da família.
Todas as plantas nativas recebiam nomes científicos com placas informativas, por exemplo: o pau-branco tinha o nome estrambólico de Auxemma oncocalyx, o xiquexique tinha o nome de Pilocereus gounellei. Os animais era vistos com binóculos alugados pelo centro de preservação. O preá que tinha um nome científico de Cavia aperea era muito raro de se ver os mais comuns eram os pássaros como o galo de campinas (Paroaria dominicana ), a rolinha fogo- apagou (Columbina squammata).
A professora Maria criara a primeira escola profissionalizante de Xiquexique com ajuda dos irmãos Fernando, Isac, Benedito e Pedro. Na sequência as profissões de cada um: técnico de eletricidade industrial, mecânico industrial, técnico em edificações e Pedro era químico, como a professora Maria.
Depois vieram outras realizações como o Teatro da Família Vasconcelos com vagas para duzentas pessoas. A professora Maria também adorava teatro, nos finais de semana quando estava em Xiquexique dava aulas de teatro no Teatro da Família Vasconcelos, e seus irmãos davam aulas de eletricidade, mecânica , construção civil e química industrial na escola profissionalizante de Xiquexique.
Xiquexique uma cidade cultural, ecológica e industrial o sonho se tornara realidade. A professora Maria Vasconcelos estava feliz, muito feliz. Seus discípulos disseminaram conhecimento para todo o semiárido brasileiro.
Nenhuma placa de rua com seu nome, nenhuma escola municipal com seu nome foram feitas em Xiquexique, porém os pássaros cantavam em sua homenagem na Serra do Galo de Campinas aonde suas cinza funerárias foram lançadas de helicóptero pela Fundação Maria Vasconcelos.